Fumaças Mágicas – 15/05/2008

Maio 15, 2008

Tambores do Sul

Hugo Carvalho *

Uma ótica distorcida nos leva a pensar ser a Bahia um estado de negritude explícita ao revés do Rio Grande do Sul, que seria, aos desavisados olhos forasteiros, branco, germânico ou italiano, de olhos claros e cabelos louros. 

Eu mesmo, gaúcho de nascimento e habitante do negro recôncavo baiano, há incontáveis anos, convivi com a propagada distinção sem aperceber-me que, como reza o dito popular, as aparências enganam. Os escravos vindos da África deixaram legados em todo o Brasil. Aqui na Bahia dos Orixás, os atabaques, a capoeira e a culinária, são pontas visíveis do enorme iceberg cultural que viajou a bordo dos navios infames. Mas poucos conhecem a herança deixada pelos negros, trazidos para trabalharem nas charqueadas, na região de Pelotas, no pampa gaúcho. 

Pelotas, famosa pela beleza de suas mulheres, que nos deu a primeira Miss Brasil (Iolanda Pereira, 1930), nos legou também o “sopapo”, um tambor afro-gaúcho, feito originalmente com casca de árvore e couro de cavalo, inventado pelos escravos de então. Foi o “sopapo”, instrumento de som grave comparável às batidas cardíacas, que conferiu uma sonoridade própria ao samba do Rio Grande do Sul, distinguindo-o do samba do Rio de Janeiro. 

E os gaúchos, bandeirantes de causas muitas, exportadores de usos e costumes típicos e consagrados, agora também, num eloqüente arroubo probatório da sua pluralidade cultural, estiveram na Bahia, comprovando que a cultura afro-brasileira longe está de ser uma exclusividade da Boa Terra. O projeto cultural “Giamarê, Odara: Tambores do Sul” que mistura canto, dança, poesia e percussão, tudo norteado pelo mais legítimo instrumento da região sul gaúcha, o sopapo, estreou nacionalmente em Salvador. 

Quanto a mim que já anotara no passado, haverem os sul-rio-grandenses produzido charutos na cidade de Rio Grande, dou-me conta agora, com alegria, de mais este elo cultural a unir baianos e gaúchos.

 

* Hugo Carvalho, economista gaúcho que se fez
Baiano em 1965, aos 24 anos de idade. Missivista por
força de ofícios quando jovem, hoje, aposentado,
mata saudades do passado escrevendo.

Os textos, colunas e artigos assinados são de responsabilidade de seus respectivos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da equipe do Portal Livre.

Entry Filed under: Fumaças Mágicas. .

Leave a Comment

Required

Required, hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


RSS Em Cima da Hora

Parceiros

Links

Arquivos

Estatísticas