QI do Berimbau
Maio 15, 2008
Por André Carvalho *
Mesmo sendo baiano da gema, acabo de comprar uma harpa. Fi-lo porque qui-lo, como diria o inteligentíssimo mato-grossense Jânio Quadros. Foi complicado encontrar uma harpa à venda aqui, na bendita cidade do Salvador. Baiano não é muito chegado a essas coisas. As poucas existentes estão em museus e, sabe-se de uma, em casa de um professor, doutor, coordenador universitário.
Minha harpa tem quarenta e seis cordas e sete pedais e seu desenho é semelhante àquele usado nas harpas dos Caldeus, em 600 a.C.. Tive alguma dificuldade em contar todas as suas cordas. Confesso, escabreado, que me confundi umas três ou quatro vezes e que foi necessária a ajuda de um amigo, o Antônio, muito mais sagaz que eu, para a consecução da tarefa. Apesar da passagem pela Universidade Federal da Bahia, nos idos de 70, empaco em coisas que dizem respeito à aritmética. A UFBA não tem culpa alguma, pois a questão é de QI. Também pudera, acostumado ao berimbau monocórdio, não podia ser diferente.
Optei pela harpa na esperança de elevar meu QI a números estratosféricos, seguindo uma nova teoria evolucionista que vem sendo elaborada e desenvolvida por médicos aqui da Bahia. Nunca dantes se viu coisa igual. A tese é a seguinte: quanto mais cordas você tocar, mais inteligente você é. Portanto, violonista que toca violão de doze cordas é mais inteligente do que o bandolinista que toca em oito cordas, que por sua vez é mais inteligente do que o baixista que é tão inteligente quanto o cavaquinista, e assim sucessivamente.
Como você já percebeu, na base da pirâmide do intelecto estão os tocadores de berimbau.
O que me encanta nos estudos científicos é a profusão de novas e revolucionárias idéias. Claro, pesquisa serve mesmo para isso. Pena o Brasil ter que reformar apartamentos de reitores magníficos e sobrar pouco recurso para as pesquisas. Com mais dinheiro poderíamos estudar a influência da percussão no resultado dos vestibulares, por exemplo. Bum, bum, bum, bum, bum ajuda ou atrapalha o batuqueiro a ingressar na universidade? Se ajudar, o faz mais em medicina ou engenharia? Outra pesquisa interessante seria relacionar curso a instrumento musical. Para direito é melhor tocar um instrumento de sopro, clarinete, talvez. Quer sucesso nas ciências econômicas, então toque oboé, e assim por diante. Comprovadas estas hipóteses, melhorar-se-ia muito o desempenho dos alunos nos exames avaliatórios, tipo ENADE e OAB.
Apenas uma coisinha me intriga quanto ao resultado de tudo isso. É que dentre os instrumentos que conheço, o mais parecido com a harpa é o berimbau. Na verdade o berimbau é uma harpa de corda única. É uma prova de inteligência dos seus inventores; substituir quarenta e cinco cordas e sete pedais por uma cabaça, uma vareta, um caxixi e uma pedra, e tirar daí, os sons necessários para uma existência feliz é fantástico. O berimbau é mais barato, mais leve, portátil, de fácil manutenção e mercadologicamente mais demandado. Tirante eu ou outro insano qualquer, ninguém compra uma harpa e leva pra casa, mas todo o mundo compra um berimbauzinho de lembrança, não é mesmo?
Tocar berimbau não é para qualquer um. Dizem que é um dom de Deus. Extrair de uma única corda a profusão de sons que os tocadores conseguem deve ser mesmo obra dos deuses. Imagino um berimbau tocando os famosos e harmônicos temas natalinos!!! Maravilha!!! Ansioso, espero o desenrolar das novas etapas da pesquisa.
* André Carvalho é Soteropolitano, tem segundo grau
completo, já viveu mais de meio século e se considera um
escriba esporádico. Atualmente amarga o desemprego.
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Entry Filed under: Crônicas Diversas. Tags: crítica, educação.
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1. Sempre Livre - 17/05/2008&hellip | Junho 5, 2008 at 11:05 am
[...] Esse negócio de baiano tocar berimbau ainda está rendendo. André Carvalho, colunista deste site, comprou uma harpa (47 cordas e 3 pedais), para ver se aumenta o QI [...]
2.
Angelica Vianna | Outubro 31, 2008 at 5:20 pm
Gostaria de avisar que a foto usada aqui da harpa foi feita por Giovanna Peres em estúdio e possui direitos autorais. Pediria encarecidamente que a retirasse de seu blog pois a mesma pertence ao autor sendo que possuo autorização para uzá-la apenas em meu site ‘www.harpa.us’
Agradeço a sua compreensão,
Angélica Vianna.
3.
Roberto | Fevereiro 24, 2009 at 10:50 am
Acho interessante esta pesquisa, porém não acredito nessa de que tocador de berimbau esteja na base da pirâmide. Como o autor disse é muito mais difícil se fazer música com um instrumento que possuí uma única corda. Imagina o Naná Vasconcelos com um trambolho de uma harpa. Se com um berimbau ele se tornou notório, imagina se ele tocasse um treco como esses???