Desafios à industrialização feirense
Junho 5, 2008
André Pomponet*
Um dos maiores desafios colocados para o próximo prefeito de Feira de Santana é a definição de uma nova estratégia de desenvolvimento industrial para o município. Desde a década de 1960 que a Princesa do Sertão se tornou uma das cidades mais industrializadas do Nordeste brasileiro, graças à sua localização estratégica, à oferta de uma infra-estrutura viária articulada com os grandes centros consumidores da região e – principalmente – aos generosos incentivos fiscais oferecidos para que o setor industrial se desconcentrasse das regiões Sul e Sudeste.
Essa política de incentivos fiscais beneficiou inicialmente a Região Metropolitana de Salvador, através do Centro Industrial de Aratu (CIA) e do Pólo Petroquímico de Camaçari. Tentou-se consolidar também a indústria no interior, mas à exceção de Feira de Santana e de umas poucas cidades, a idéia foi abandonada mais adiante.
Naquela época a economia mundial não enfrentava alguns dos problemas atuais e o dinheiro circulava fácil, emprestando-se com generosidade para países subdesenvolvidos como o Brasil. Foram esses empréstimos que financiaram os vultosos investimentos dos militares em infra-estrutura e colaboraram para que grandes indústrias se instalassem no Nordeste.
Quando os incentivos acabaram as empresas começaram a deixar a região. Foram surgindo, então, os “cemitérios de indústrias”, entre os quais figurava o Centro Industrial do Subaé (CIS). Entristecia ver os grandes galpões abandonados, com o mato crescendo. Mas o fenômeno tinha uma explicação simples: as empresas vinham movidas pelos incentivos fiscais. Quando esses acabavam, elas simplesmente iam embora.
Anos 1990
A partir dos anos 1990, o antídoto para o veneno foi repetir o mesmo tratamento: lançou-se mão de forma ainda mais arrojada de incentivos fiscais, atraindo indústrias que aqui começaram a enxergar outro atrativo: o baixo preço da mão-de-obra. E, assim, a Bahia mergulhou num novo “ciclo industrializante”, cujos alicerces são uma frágil e inconsistente política fiscal e os baixos salários pagos a trabalhadores pouco qualificados.
No curto prazo a estratégia rende alguns resultados: atrai empresas, gera empregos, dinamiza a economia local em alguma medida e – principalmente – produz o crescimento do PIB que os políticos avidamente usam nos palanques. No longo prazo, porém, o que se consegue é tornar o Estado refém da renúncia fiscal, constituindo um ciclo vicioso.
Durante décadas faltou à Bahia a capacidade de pensar a indústria no longo prazo. Educar a população e qualificar a mão-de-obra, tornando os trabalhadores baianos competitivos em relação aos dos demais estados, investir em infra-estrutura, fortalecer a agricultura (e a agroindústria), o comércio e os serviços são mecanismos capazes de impulsionar o mercado interno e incorporar o estado ao circuito dos grandes investimentos.
A grande questão é que isso não se constrói em meses ou em poucos anos. Exige planejamento e visão de futuro, competência, desapego às conveniências eleitorais e muito trabalho. Há quase 50 anos, política fiscal era uma estratégia original para estimular a industrialização. O problema é que depois disso vieram crises fiscais, da dívida externa, revolução tecnológica, democracia, movimentos sociais e eleições livres. Só que muitos não perceberam e permanecem amarrados ao passado.
Se pretende consolidar e ampliar seu parque industrial, Feira de Santana precisa pensar essas questões. Mas pensar sob uma ótica moderna, superando a visão eleitoralmente eficiente do passado, mas socialmente falida nos dias atuais.
* André Pomponet é jornalista
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