Um Olhar Diferente – 05/06/2008

Junho 5, 2008

Viagens Encantadas ao Mundo da Leitura

Acaba de ser concluída a pesquisa realizada pelo IBOPE sobre a leitura no Brasil. Com 5 mil entrevistas feitas a pessoas de cinco anos de idade ou mais, desenha o retrato que hoje o país mostra na sua relação com os livros. Ainda com proporção alta de analfabetos, a terra de gênios da palavra como Machado de Assis e Guimarães Rosa vem – graças a Deus! – crescendo em número de leitores. Essa edição da pesquisa teve como objeto de estudos o leitor e o não-leitor, a percepção da leitura no imaginário coletivo, as preferências e motivações do público e os canais e formas de acesso ao livro.

O retrato hoje apresentado mostra um animador panorama dos hábitos de leitura dos brasileiros, muito especialmente dos mais jovens. São 50 milhões os que atualmente se aventuram pelos caminhos encantados da leitura e dela fazem seu prazer dileto. E a proporção de livros lidos por habitante subiu de magros 1.8 da pesquisa anterior, em 2001, para quase 4. Em plena era da internet, dos celulares e do “boom” do mundo virtual; quando se proclama o ocaso da palavra e o advento iniludível da cultura da imagem; é confortador constatar que o texto escrito continua atraindo, seduzindo, povoando vidas e imaginação, despertando afetos e sonhos, estimulando vôos e instigando o louco e ousado ato de pensar.

A pesquisa traz algumas constatações importantes que certamente ajudarão o Brasil a crescer mais ainda neste caminho pelo mundo mágico da leitura. E terão certamente grande influência na formulação de políticas públicas que visem ajudar a reverter o precário quadro da leitura no Brasil. A primeira delas passa pela derrubada de mitos seculares como, por exemplo, o de que os jovens não gostam de ler. Segundo a pesquisa, o leitor brasileiro hoje se encontra mais na população jovem do que na adulta ou idosa.

Outro dado significativo é o papel da escola e da casa na formação do leitor.  Sem deixar de sublinhar a importância dos professores na introdução e cultivo do gosto pelo livro, a pesquisa destaca de maneira especial a influência da família e, sobretudo, da mãe.  Em uma cultura como a brasileira, em que a primeira formação da criança ainda é matrilinear, é a mãe quem introduz as primeiras letras, iniciando o filho no gosto pelos novos e deslumbrantes universos que aqueles blocos de papel com sinais pretos podem proporcionar.

Lembro-me de minha infância e adolescência, quando o grande programa de fins de semana e de férias era povoado de livros. Guiada e acompanhada por minha mãe, leitora apaixonada, fui descobrindo e lendo. Ou relendo. Monteiro Lobato, a Condessa de Ségur, Minha vida de menina, de Helena Morley. E, mais tarde, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Erico Veríssimo… Quantas e quantas dezenas de vezes visitei e revisitei Reinações de Narizinho. Com que voraz prazer esquadrinhei O Minotauro, Os doze trabalhos de Hércules, que me abriram de par em par as portas da mitologia grega, conduzindo-me daí para a cultura e a filosofia da Grécia Antiga e dali, por caminhos meio tortuosos, para a teologia onde até hoje me encontro.

Como passei e repassei os olhos pelo olhar de ressaca, oblíquo e dissimulado de Capitu, perguntando-me uma e outra vez se o adultério existira realmente ou seria apenas uma criação da cabeça de Bentinho! E enquanto passeava pelos intrincados descaminhos da esterilizada relação amorosa do casal machadiano, era o próprio Machado, com a arte de sua pena, que me ia formando culturalmente, eticamente, humanamente.

Cada livro é um mundo. E todo livro é alimento para o corpo, a alma, o coração, a vida. Ler é ser iniciado a um mistério que quanto mais se descortina e se revela, mais instiga a levantar a ponta do véu que esconde seus encantos e segredos. Todo livro é, portanto, mistério a ser desvendado. E desvendar implica missão de contagiar a outros. Missão às vezes árdua e difícil.

Já o dizia sabiamente o vidente de Patmos, quando, no livro do Apocalipse, ouve a ordem divina: “Vai e toma o pequeno livro aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e a terra”. E que, ao receber o livro, ouve a misteriosa consigna: “Toma e devora-o! Ele te será amargo nas entranhas, mas, na boca, doce como o mel.” Que o Brasil prossiga sempre mais sua viagem pelo mundo mágico de mel e fel que é a leitura, é o desejo que nos habita ao tomar conhecimento dessa pesquisa.

** Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora e
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. Autora
de “Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas).

 

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