Decência Perdida – 21/06/2008

Junho 21, 2008

André Carvalho *

A farra dos cartões corporativos governamentais me remete a duas estórias de infância, que no meu entendimento, ilustram a diferença de atitude entre os antigos e os atuais políticos brasileiros. Verdade que bons e maus políticos sempre existiram, porém, as proporções inverteram-se sobremaneira com a passagem dos anos. Sobram os maus, catam-se os bons. Buscar as razões que motivaram a mudança de valores dos políticos em relação à coisa pública, é exercício extenuante, que não cabe aqui.

Resisto em relatar estórias familiares de maneira tão aberta, tão ampla, principalmente quando se distinguem pela beleza, pela honestidade ou por outras virtudes quaisquer. Todavia, dado o vazio ético do atual momento político, sinto-me na obrigação de torná-las públicas no interesse único de estabelecer parâmetros para análises. 

Lá pelos meus doze anos de idade, vivia em Brasília, onde meu saudoso pai exercia o segundo mandato de Senador da República, eleito pelo Estado da Bahia. Estudava pela manhã e tinha as longas, claras e muitas vezes secas tardes para brincar de futebol e bicicleta, modalidades que a arquitetura da cidade e sua desértica vastidão, à época, ajudavam.

Fim de tarde, banho tomado, chegava a hora dos deveres de casa, sempre muito difíceis e intermináveis na minha concepção. Certo dia, necessitando rascunhar exercícios de matemática utilizei um bloco de papel branco, meia folha, com o brasão das Armas da República impresso no cabeçalho ao lado da identificação SENADO FEDERAL. Estava concentrado na matemática, quando meu pai chegou do Congresso, falou alegremente comigo, foi para seu escritório instalado em um dos quartos do franciscano apartamento em que morávamos, e, ato contínuo, me chamou.

Recebeu-me com algumas cédulas de dinheiro na mão e um pedido para que fosse à Livraria Eldorado, uma quadra acima dali e comprasse dez blocos de rascunho, em papel jornal. Sem desconfiar de suas intenções atendi fagueiro ao pedido. Afinal, ir a livrarias era uma das nossas rotinas brasilienses.

De volta, ao entregar-lhe a encomenda, meu pai abriu o embrulho e me devolveu todos aqueles blocos com a recomendação para que, a partir daquela data, jamais usasse material fornecido pelo Senado Federal. De forma didática deu-me a razão para tão incisiva proibição: “Foi comprado com o dinheiro do povo para uso exclusivo dos Senadores. O eleito fui eu, não você”. Em seguida, brandamente, perguntou-me se ainda precisava de algum material escolar.

O outro acontecimento segue a mesma linha. Na década de sessenta o Senado não fornecia “carro oficial” a todos os senadores. Creio, sem muita certeza, que apenas os membros da mesa, presidentes de comissões e líderes de partidos os tinham. Durante bom período meu pai “pegou carona” com o Senador Mem de Sá, ilustre e probo representante do Rio Grande do Sul que, como nós, residia na SQS 105 (endereço brasiliense típico). Tempo depois, ao presidir a Comissão de Constituição e Justiça, meu pai fez jus a um veículo. A família, reunida à mesa do jantar, foi informada que não poderia usar o reluzente Sinca Chambord, exceto em sua companhia, no trajeto casa/aeroporto, por ocasião dos embarques ou desembarques que realizávamos nas férias, quando vínhamos, todos, para Salvador. Por ano, quatro “oportunidades”, correspondentes às férias escolares concomitantes ao recesso parlamentar.

Os dois impedimentos, de tão acertados, não passavam de trivial obrigação na vida de um cidadão honesto no exercício de mandato parlamentar e, por conseguinte, de sua família. Imagino hoje, um portador de cartão corporativo governamental lendo este artigo! Certamente considerará as circunstâncias desprezíveis e o personagem central um “ser” medieval.

Quais caminhos estamos trilhando neste maravilhoso Brasil?

* André Carvalho é soteropolitano, já viveu
mais de meio século e se considera um escriba
esporádico. Atualmente amarga o desemprego.

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